Um ano depois da tragédia, quem vai
responder?
O brasileiro tem fama de ter memória curta. Por
isso, pra ver se o que dizem é verdade nos arriscamos a perguntar:
alguém ainda lembra o que aconteceu no dia 27 de maio do ano passado que
chocou não somente o povo piauiense, mas todo o povo brasileiro?
Possivelmente poucos vão lembrar. Alguns porque têm memória curta e já
se esqueceram, mas há outros que preferem nem lembrar porque assim lhes
convém. Já aqueles que perderam seus filhos, parentes, amigos, animais e
sua casa inteira, levados pelas águas revoltas de uma barragem, estes
com certeza nunca irão esquecer-se desse dia fatídico. Agora sim, talvez
alguém venha a lembrar-se - hoje, faz exatamente um ano que ocorreu o
rompimento da barragem Algodões I, em Cocal, o qual deixou centenas de
famílias desabrigadas e 15 pessoas mortas em conseqüência desse
rompimento, é o que informa a AVABA (Associação de Vítimas e Amigos da
Catástrofe Causada pelo Romp. Da Barragem Algodões )
Quantos meses
cada Brasileiro trabalha para manter o estado com seus impostos? Quanto
vale uma vida para o Estado? Será que as famílias
que perderam tudo não têm o direito de uma justa indenização para
recomeçar suas vidas de forma digna?
As famílias que
perderam um ente receberam em dinheiro R$ 500,oo e o equivalente em
móveis e utensílios domésticos outros R$ 4.500,oo. Nós Brasileiros que
sustentamos o nosso Estado só valemos isso?
Uma vez que as
famílias foram retiradas de suas residências por ordem judicial pelo
fato da área representar risco para as suas vidas, quem deve responder
pelo retorno das famílias ao local, já que a ordem judicial
foi desrespeitada?
Recentemente, a
imprensa piauiense divulgou que o Ministério Público do Estado está
cobrando a punição da Emgerpi - Empresa de Gestão de Recursos do Piauí
-, e do Governo do Estado com o pagamento de indenização por danos
morais e materiais, além de indenização pelas perdas de familiares na
tragédia de Algodões I. O MPE argumenta que a Emgerpi e o Estado deverão
ser responsabilizados por permitirem a volta das famílias à área de
risco sem um laudo técnico comprovando que a barragem não se romperia.
Dizem que
perguntar não ofende, então tenhamos a coragem de indagar as autoridades
do nosso Estado: quando estas famílias terão acesso aos seus direitos?
As casas que seriam para estas famílias, já foram concluídas e
entregues? De acordo com o presidente da AVABA, o
então secretário de Defesa Civil informou que o
governo do Estado do Piauí recebeu 9 milhões de reais para a
reconstrução de casas populares destinadas às famílias atingidas pela
barragem. Foram construídas 381 casas? Qual é o custo de cada uma dessas casas informado pelo
governo do estado? E de acordo com o
levantamento dos pedreiros e da população local, quanto custa cada casa
mesmo? E a indenização que as famílias deveriam receber, já está sendo
repassada? Não podemos deixar que apaguem da nossa memória aquele
terrível dia.
O Documento de
Aparecida ( 467) nos fala que hoje assistimos a novos desafios que nos
pedem ser voz dos que não têm voz, porque diante da exclusão, Jesus
Cristo defende os direitos dos fracos e a vida digna de todo ser humano.
De seu mestre, o discípulo tem aprendido a lutar contra toda forma de
desprezo da vida e da exploração da pessoa humana ( DA 358).
Dom Alfredo Schaffler
Bispo Diocesano de Parnaíba

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